Acidulante

corroendo a monotonia

A morte final de Chacrinha

04/11/2009 | 2 Comentários

Achei que nunca fosse dizer isso, mas depois de Chacrina, o Domingão do Faustão é um primor de bom gosto e elegância.

Alô Alô Terezinha, dirigido por Nelson Honeif, é um recorte do universo ao redor do Velho Guerreiro, contada através de declarações de pessoas que particuparam daquele confuso cosmo que foi criado ao redor de Abelardo Barbosa. Ele ganhou a Calunga de Melhor Longa Metragem no Festival CINE – PE do ano passado. É eu sei que se você for olhar nos créditos, eu fiz parte da curadoria, mas antes que apontem os dedos pra acusadoramente mim, eu não tive nada a ver com os longa metragens. :) Como diriam no Tropa de Elite… “Essa p… não era minha.” Eu tava responsável pela parte dos curtas digitais.

Eu lembro vagamente do Chacrinha, quando eu era MUITO pequeno. Sombras da infância. Ou então um bloqueio mental para proteger minha frágil psiquê infantil alimentada pelos Beatles de tamanha esdruxulice. Não me chamava a atenção, algo como um limbo psicodélico e sem sentido. Algo como Xuxa, só que para adultos.

Qual não foi minha surpresa ao assistir duas horas de declarações de pessoas que passaram por lá de alguma maneira. Algumas, bem poucas, se deram bem. Somente Fábio Júnior na verdade me vem a cabeça imediatamente. Outros marcaram imagens mas desapareceram na história, a exemplo de Elke Maravilha ou Ney Matogrosso. Outras centenas de loosers vieram e passaram, e aparentemente nunca se recuperaram do choque. As chacretes, bem, digamos que somente as que deram a bunda se deram bem, com o perdão do trocadilho.

O material documental é muito rico, inegável dizer. São arquivos da TV brasileira que devem ser preservados. Primeiro, por que são uma grande amostragem da cultura pop brasileira dos anos 80 voltada para o que HOJE se chamam de classes C,D e E, numa tucanagem para o que é conhecido como povão. E tinha uma certa insanidade carnavalesca que o chacrinha utilizava que tinha uma deliciosidade perversa, uma exaltação sexual sem culpa, uma ovação bacante e carnavalesca ao Caos. Era putaria, simples e pura, na tv, em plena época de repressão e censura. Sobrenatural, vos digo, sobrenatural. Se rolasse hoje, ninguém acreditava. Jogar bacalhau salgado na plateia? Takes de câmera ginecológicos? Chamar gente de bicha no ar? Coisa trivial pro cara.

Minha hipótese é que o chacrinha aplicou a teoria do big crunch ao tratamento de temas delicados na TV. Era liberdade demais com caos demais. Expandiu muito o grau de tolerância, o que cortou a possibilidade de um desenvolvimento gradual desses tratamentos. Caraca, o cara tinha músicas sobre camisinha em 82, muito antes de qualquer esforço social de conscientização sexual, que só realmente ganhou peso nas classes pobres no meio dos anos 90 (há quem diga que até hoje não ganhou). Ao mesmo tempo, as chacretes faziam as músicas atuais de brega e dançarinas do tchan parecerem puritanismo de igreja evangélica extremista. Resultado? Uma Tv careta, infantilizada que trata tudo com estranheza, ao menos na tv aberta. Talvez por que as novelas tenham mais esse papel de tratar temas difíceis com o público, não sei.

Infelizmente, o Documentário abraçou o caos mais do que seu suporte permite. Existe em indas e vindas, sem eixo cronológico/narrativo aparente. Misturamos as chacretes com os calouros fracassados, adicionados com pitadas de declarações saudosas de famosos e sobreviventes. Ele vai e volta, e acaba por não chegar a lugar algum.  Suspeito, porém, que é assim que Chacrinha queria que fosse…

O que ele tem de Genial: Uma amostragem do que se podia assistir sem choque na época da repressão, um levantamento de uma figura histórica da TV brasileira.

O que ele tem de não-Genial: Completamente insano na construção, chegando ao ponto do tédio. Não responde quem DIABOS era a maldita Terezinha…

Besouro: Rico em Brasilidade, mas pobre de Ginga

30/10/2009 | Nenhum Comentário

Nessa época de cinema nacional “Globalizado” (no sentido de feito pela GloboFilmes), é muito curioso encontrar um produto nacional como Besouro. Ele não tem nada a ver com a última leva de filmes brazucas de conversões da TV para o cinema, como é feito, com eficiência, por Daniel Filho. Também passa longe dos conflitos intra urbanos das cidades modernas, da ultraviolência estetizada que foi tão duramente criticada no início dos anos 2000, que culminou no Tropa de Elite. Muito pelo contrário. É verdadeiramente original em sua base e cenário, algo que raramente pode ser falado hoje no cinema nacional. Besouro é um filme brasileiro tanto quanto um filme pode se auto intitular dentro de um gênero tão amplo. E esse é exatemente o problema da produção, que não se decide nem como drama histórico, nem como filme de ação. Seria bom aprender com os chineses que operaram os cabos, por que eles sim, entendem o que é necessário em filme de porrada.

Besouro retrata o período imediato da pós escravidão no interior do recôncavo Bahiano. Focado na cultura negra, somos apresentados a Mestre Alípio Interpretado por Macalé. Ele estereótipo do Preto Velho da figura do candomblé, figura referencial e reverenciada por conhecer os caminhos tanto políticos quanto Místicos e culturais. Também somos apresentados ao ainda-não-super capoeirista Besouro, interpretado pelo mestre de capoeira Aílton Carmo. Sob a já experimentada batuta da preparadora de atores Fátima Toledo (Cidade Baixa e Cidade de Deus), todos os atores parecem bastante à vontade, mesmo os que não são atores profissionais.

Um pra lá, dois pra cá, e um pé na cara!

Um pra lá, dois pra cá, e um pé na cara!

Após a morte de Alípio nas mãos dos Subordinados do Coronel Venâncio, encarnado por Flávio Rocha, sem maldade o suficiente no sangue. Deveria receber uma tranfusão de maldade do pernambucano Irandhir Santos, que interpreta o capitão-do-mato Noca, esse sim o tipo de vilão que todos amam odiar num filme de ação. Admitindo que Tio Ben, quer dizer, Mestre Alípio, morreu por seu descuido, e com alguma ajuda da interessantíssima figura de Exú, Besouro aceita que com Grande Responsabilidade vêm grande Poder e se refugia nas matas, onde recebe bençãos dos Orixás, numa sequência extremamente interessante. Após isso, ele inicia sua campanha terrorista para conseguir a real libertação de seu povo das garras do Coronel Explorador.

Vai lá e desce o malho neles, negão!

Exú, parafraseando General Zod (Superman 2): Ajoelhe-se perante Zod!

Okay, eu sei que Besouro, o Corda Dourada, é uma figura histórica e tem de ser tratado como um certo respeito e reverência pela sua importâncual cultural. Mas o problema é outro, e por assim dizer, mais embaixo: Quando se faz uma história para um filme, ficcional, inspirada ou não, é preciso ter uma idéia MIUTO clara de que tipo de história deseja ser contada. E cada tipo de história, ficcional ou não, possui suas próprias necessidades de alocação de elementos. Bastardizando bem a coisa, se você quer contar a história do Homem Aranha, você não pode gastar 40 minutos falando de como os fotógrafos freelancer são mal tratados nas redações.

Portanto, Besouro peca não pela fotografia, extremamente bem feita e planejada com esmero. Também não falha pelo áudio, problema comum do cinema nacional feito fora de um estúdio de TV. Muito pelo contrário, os sons são limpíssimos, e tem excelente trilha da Nação Zumbi e Gilberto Gil, entre outros.O problema é que falta besouro no filme. Olha vou ser franco com vocês que estão lendo. Se você faz “um filme de super herói”, vá assistir filmes de super heróis. No mínimo, assista Star Wars. Se puder ir mais além, leia as obras de Joseph Campbell sobre a estrutura dos mitos, que é a bíblia de cabeceira deste tipo de história. Primeiro, os heróis APRENDEM a usar as habilidades que recebem. Isso faz parte e facilita a identificação do que ele pode ou não fazer, e cria empatia com a audiência. Besouro passa da capoeirista competente a Super Capoeirista mais rápido do que Michael Schumaker passa da primeira pra sétima marcha, com a benção dos orixás. Ainda bem que os orixás não abençoaram Michael Schumaker senão ele ainda tava correndo até hoje.

Se ISSO não resulta num nocaute automático, nada mais consegue...

Se ISSO não resulta num nocaute automático, nada mais consegue...

Essa transformação em herói leva tempo em tela. E em Besouro, esse tempo é gasto com o desenvolvimento de outros personagens, como o amigo de infância de Besouro, Quero-Quero(Anderson Santos), e a bela Dinorah (Jéssica Barbosa, que também interpreta a orixá Iansã), namorada dele, que serve na casa grande do coronel, mas é envolvida com a capoeira/movimento de resistência.

Portanto, se tem alguma coisa que falta, é o próprio Besouro no filme, e sendo esta uma releitura fantástica de uma figura histórica, ficou faltando a relação dicotômica entre vilão e herói, e sobretudo, faltou o combate. Isso. Faltou capoeira num filme sobre capoeira. Faltou vermos Besouro arregaçar, com felicidade, os minions empregados do vilão coronel from hell. Em outras palavras, faltou o diretor João Daniel Tikhomirrof conversar com o Dee Dee, o responsavel pelas coreografias e usos dos cabos comuns aos filmes de Kung Fu de Hong Kong, e aprender algo com ele. Se o enfoque fosse um drama histórico, era melhor ter deixado os orixás um pouco mais fora dessa. Não foi o caso.

Não me entendam mal. Besouro vale MUITO a pena. É um filme de direção estética sensível, que mostra uma época pouco retratada e por um ponto de vista diferente do que estamos acostumados, algo que é MUITO necessário no cinema brasileiro atual. Ele tem atores que se encaixam bem nos papéis, preparados com cuidado, com coreografias de luta curtas mas competentes, e algumas sequências perturbadoramente eficientes, como o contato de Besouro com os Orixás, que ficaram magistralmente representados, ao menos para mim que conheço pouco sobre o candomblé. Mas ficou faltando definir BEM que aspecto do Corda Dourada seria contado: O super-herói ou o guerrilheiro.

O que ele tem de Genial – Brasilidade extrema, bons atores (profissionais ou não), bem coreografado e original. Lutas legais, Orixás GENIAIS. Exú é decidadamente “O Cara”.

O que ele Não tem de genial – Falta Besouro, que fala pouco e aparece menos do que deveria. Falta um confronto satisfatório com um oponente digno. As coisas ficam muito fáceis e isso prejudica a trama. Desperdicio de excelentes personagens.

Distrito 9 – Os camarões e sua humanidade

25/10/2009 | 3 Comentários

Ficção científica é uma coisa curiosa. Embora seja uma velha discussão em velhos círculos, no fim das contas, ela trata de supor como a alma humana se comporta perante mudanças de  mundo drásticas.  Isso parece ser especialmente verdade  em Sci-Fi que envolvam seres alienígenas. (nem todos o fazem, vale lembrar).

Por vezes essas mudanças ressonam em algum fator externo.  Como o medo do escuro/desconhecido em Alien (1979),  de Ridley Scott. Esse medo pode passar para o maravilhamento como aconteceu no belo Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), ou Cocoon(1985). Não vou nem citar E.T – O Extra Terrestre (1982), como exemplo de nada, por que aquele filme é brega pra caramba.

Porém, outras vezes, essa mudança apenas ressona em algo que a humanidade já possui DENTRO de sí, e não fora dela. A medo da anulação do que nos faz humanos em Invasores de Corpos(1978). A santidade das nossas lembranças e corpos em O Vingador do Futuro(1990), ou a certeza que não somos nem de longe tão civilizados e tolerantes como poderíamos ser, à exemplo do excelente Inimigo Meu(1985).

Esse tipo de outrificação e exposição dos absurdos que a humanidade é capaz é central em Distrito 9 (District 9, Africa do Sul/Austrália), na opinião deste que escreve um dos melhores filmes do ano até agora, e na seção ficção científica, um dos mais legais que assisti ultimamente, do lado do novo Jornada nas Estrelas de J.J. Abrahms. Dirigido por  Neil Blomkamp, o Distrito 9 nos mostra que não é necessário ter uma quantidade estelar de dinheiro (é barato para os padrões de hollywood), nem experiência como diretor (é o primeiro longa metragem dele), basta ter uma boa idéia.

Blomkamp foi descoberto por Peter Jackson, o diretor da mega série de fantasia O Senhor dos Anéis,, que assistiu seus excelentes curta metragens, como Tetra Vaal e TempBot. O estreante originalmente foi incumbido de realizar a adaptação para as telonas da a famosa franquia de games Halo: Combat Evolved. O projeto acabou não indo pra frente, mas ele meio que ganhou de esmola o que sobrou do dinheiro, e com essa verba, fez o Distrito 9

Conhecendo os resultados desse tipo de adaptação, nós que gostamos de ficção científica, temos que erguer as mãos para o Arquiteto que decide que filme de ficção científica vai prestar ou não. O filme nos leva para a Africa do Sul, em Johannesburgo, onde uma nave alien decide fazer a entrada no nosso planeta. Ela fica lá por cima feito um objeto de mau agouro sem fazer nada, até que seus integrantes, quase um milhão deles, são resgatados e trazidos do chão. A nave continua por lá, e sem perspectivas de ir embora.

Se esse troço cai a gente tá MUITO ferrado...

Se esse troço cai a gente tá MUITO ferrado...

E agora, além de aliens, eles também são imigrantes ilegais. :) Acompanhamos, assim, um documentário da MNU, a força de controle que trabalha o campo de concentração/vila de refugiados onde esses Camarões (como são chamados de forma ofensiva pelos humanos). Para compor esse documentário, Blomkamp espertamente mistura depoimentos de atores com não atores, falando de imigrantes ilegais humanos mesmo, o que dá muita credibilidade para a coisa toda.

Os aliens também ficaram muito bem pensados. É facil cair no erro de produções como Star Wars e O último Guerreiro das Estrelas, onde aliens são todos humaniformes, falam inglês fluente ou com algum sotaque, e se comportam como perfeitos cavalheiros ou russos sedentos de sangue. Os Camarões são tão alienígenas quanto quanto os xenomorfos de H.G. Giger em Alien, falam com uma linguagem própria, e tem hábitos incompreensíveis. Você nunca mais vai conseguir olhar para comida de gato do mesmo jeito depois de Distrito 9, lhe asseguro.

Eu falo tudo que vocês quiserem, mas mandem o cara com Baygon embora!

Eu falo tudo que vocês quiserem, mas mandem o cara com Baygon embora!

Isso tudo colabora com sua inumanidade e estranheza, mas ao acompanhamos Wikus Wan der Werwe, um fiscal da MNU que tem de “realocar” 1.8 milhões de camarões, percebemos que é a humanidade que é o problema. É facil lembrar dos genocídios de ruanda, dos campos de concentração e das nossa próprias favelas brasileiras, dos negros sendo espancados nos anos 60 nos EUA e no tratamento que os mexicanos levam nas fronteiras. Residentes, convidados indesejados, mas nunca gente. Em Distrito 9, a expressão Illegal Aliens, usada pela imigração americana para imigrantes ilegais, mostra toda a sua verdadeira cara, e portanto, a verdadeira cara da humanidade, quando é obrigada a conviver com algo que não gosta, não entende, não quer saber mais e tem raiva de quem sabe.

Junte isso um dos melhores designs de armaduras de combate e props desde Alien 2, cenas de ação mecanizada que devem ter feito Michael Bay chorar de inveja por ter feito Transformers 2 e não ter chegado nem aos pés do que o estreante Blomkamp fez.

E por falar em Michael Bay…

EXPLOSIONS!

Distrito 9 vale a pena. Assista com olhar carinhoso, e veja que é possível achar humanidade nas situações mais degradantes.

O que ele tem de Genial: CGI decente, bela mistura de real com ficção, premissa original, uma excelente formatação de cenário, passa longe de Tóquio, Nova York, Londres e outras pistas de pouso Alien que resultam em ação armada pelos EUA. Só atores desconhecidos.

O que ele tem de fraco: Personagem principal chato e previsível, e as vezes não convence. Final previsível.

Concorda? Discorda? Mande sua opinião sobre o filme!

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